William Mendonça
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SEUS OLHOS, NOSSOS MEDOS

   O medo dominava o espírito dos homens em cada passo. Havia partes de corpos, trucidadas como folhas de papel, espalhadas por todo o corredor. Um dos oficiais de segurança vomitou em seu próprio capacete. Precisou se esforçar para não morrer sufocado. Não havia como sobreviver ali, com tamanha quantidade de amônia dominando o ar. Os sistemas de suporte de vida tinham caído. A bomba destruíra um terço da nave. O restante não iria durar muito. Dez minutos, talvez.
   Eu queria ter convicção do que estava fazendo. Antes da explosão, havia uma nave de fuga ali que poderia levar até doze pessoas. Éramos oito sobreviventes. Até onde eu sabia. De uma hora para outra, fui elevado à categoria de comandante da nave, já que toda a cadeia de comando até o chefe armeiro tinha sido praticamente desintegrada pela explosão, que não viera de alguma nave hostil, mas de um tripulante.
   Um terrorista. Darwin. Um terrorista com nome de cientista. Queria morrer juntamente com a nave. Para ele, a exploração espacial era mais uma faceta da iniciativa humana em dominar os mais fracos, aterrorizar, escravizar, sugar recursos, como enormes gafanhotos. Fora assim com as Américas e a África, fora assim com os reinos da Ásia, por que não seria o mesmo com planetas e luas? Ele não acreditava em nós, enquanto espécie.
   A nave tinha minutos antes de, efetivamente, cumprir a sentença de morte dada por Darwin. E nós, se não encontrássemos a nave de fuga, iríamos ser destruídos com ela. Era a única chance. Chegar à nave e seguir em voo cego até algum planeta onde pudéssemos pousar. Provavelmente não haveria combustível para tal. Morreríamos no espaço, se um resgate não chegasse.
   - Temos que passar por este corredor para chegarmos à área de pouso. Não podemos fazer mais nada por essas pessoas. Vamos em frente. – disse.
   O grupo estava unido como se a tática fosse aparentarmos sermos todos um único ser. Darwin não poderia ter escapado da explosão que causou quando fora descoberto. Era um homem de aparência frágil, que estava na missão porque algum tripulante subalterno tinha ficado doente. Naves de empresas particulares sempre tinham esse tipo de problema. O salário era baixo, o tempo de trabalho desgastante. As famílias ficavam em terra e, muitas vezes, nem voltavam a ver os astronautas.
   Rigga e Domácio chegaram à porta.
   - Abro, senhor? – disse Domácio.
   - Atenção todos. Pode abrir. Segurem-se em alguma coisa.
   A porta se abriu lentamente e um sopro de ar limpo inundou o corredor. Ali o suporte de vida ainda funcionava. Passamos por ela e a fechamos. A nave ainda estava lá no hangar, pronta para partir.
   - Vamos. Temos que sair daqui. Essa coisa toda vai explodir em minutos! – gritei. 
   Um tiro atingiu Damácio, na cabeça. Silencioso, atravessou o capacete e a cabeça do tripulante. Ele caiu.
   - Protejam-se! – gritei.
   Outro tiro. Wenner mal teve tempo de tocar o próprio peito, atingido. O coração foi transpassado como se uma flecha o tivesse estourado. Ele caiu sobre os joelhos, com um grito de horror. 
   Tentei identificar a origem dos tiros. Vinha da própria nave. A nave a que tentávamos chegar.
   - Mantenham posição. Se atirarmos naquela nave, não vai haver mais como sair daqui. – disse.
   De dentro da nave, uma voz surgiu em nossos capacetes.
   - Sabe o que vocês estão sentindo? Medo. O medo de que não dê tempo para escapar da armadilha que o espaço trouxe para vocês. Quantos minutos? Dez, cinco?
   - Darwin? Como você escapou da explosão? Você não vai sair daqui vivo! – respondi, surpreso e irado ao mesmo tempo.
   - Não vou, nem vocês. Agora vejo nos seus olhos os nossos medos. Os medos de milhões de pessoas exploradas, roubadas, escravizadas e transformadas em lixo humano, vítimas de preconceitos pela eternidade, trabalhadores deixados à míngua. O mesmo medo de quem sai de casa todo dia sem saber se voltará vivo, se terá dinheiro para dar comida a um filho. Você tem medo, mas eu não, porque eu não quero sair daqui vivo. Minha missão era garantir que sua missão nunca desse certo.
   - Mas esta nave já está morta, Darwin. A missão acabou. Somos apenas nós. Você e nós.
   O homem silenciou. Nosso grupo tentou avançar para a nave, buscando proteção em containers que estavam no hangar. Darwin tinha uma vantagem tática. Podia nos ver. 
   - Darwin, se você quer morrer aqui, que fique! Mas nos deixe sair!
   - Você não compreende, Lúcio. Você ainda não compreende.
   - Explique.
   - Nenhum de nós vai sair daqui porque não vamos deixar a humanidade fazer no espaço o que fez na terra. Nem eu, nem outros tantos como eu. Vocês, com sua arrogância, nos fabricam como a carne podre atrai moscas.
   O mesmo discurso que qualquer integrante do programa espacial já tinha ouvido: ou era a questão do dinheiro ou a de vilipendiar a criação de Deus. Por vezes, eram as duas coisas juntas. Dívidas históricas. Dívidas religiosas. Dívidas, que os loucos cobravam dos sãos em um mundo doente. Eu não estava disposto a morrer por aquela estupidez. Fiz sinal para que o grupo avançasse. O tempo estava acabando.
   - Você é que não entende. Isso foi em outro tempo. Agora há paz.
   - Que paz! Você já entrou em uma favela no Brasil, um gueto na Índia? Você já comeu a ração que dão aos humanos da Somália? Pensou que apenas os animais a comessem? Você já circulou pela pobreza e o sofrimento dos filhos e netos dos escravizados? Você sabe o valor do dinheiro, Lúcio, quando não tem. Você sabe o valor da dignidade, quando ela lhe é tirada.
   - Estamos em paz. O mundo está corrigindo esses problemas. Hoje é muito melhor do que há cem anos.
   - Melhor para você, que tem um emprego. Melhor para o comandante, que tinha status e poder. Melhor para os donos da empresa que criou este monstro, usando recursos que poderiam acabar com a fome no planeta. Fortunas gastas com naves como esta para explorar a galáxia, destruir outros planetas, atravessar outros mares, como há setecentos anos – rumo a um novo continente. Não vamos deixar que isto aconteça!
   - Vocês, terroristas, atiram em uma abelha com um rifle para matar elefantes. Para que matar tanta gente aqui? Se quer mudança, porque não ataca a ONU?
   O grupo estava próximo da nave. Continuei mantendo Darwin focado em mim. Bastava que alguém o tivesse na mira, e teríamos uma chance. Mas tinha que ser logo. Dois minutos, ou menos. 
   - Nosso legado de terror atravessando continentes quando ainda nem se recuperaram da peste, levando doenças e violência para outros lugares.
   - Você está falando do passado. Ninguém mais pensa assim.
   - Enquanto cada um não tiver sua terra, não tiver condições de prover seu próprio alimento e o de sua família, não tiver direito a tudo que vocês, de seu mundo rico, conseguiram tirar dos povos pobres ao longo de séculos, por que viajar ao espaço? Qual a lógica?
   Rigga sinalizou. Tinha Darwin na mira. Se errasse, podia atingir a nave, destruir nossa única rota de fuga. Respirei fundo. Sinalizei para ela.
   - Darwin, olhe para mim agora. O que vê nos meus olhos?
   Ele não respondeu. Um tiro certeiro o atravessou na cabeça. Não tinha mais nada a dizer. 
   Rigga comemorou a pontaria. Bem treinada. Militar. Nunca erraria um tiro se sua vida dependesse disso.
   - Você não verá nos meus olhos os seus medos, nem a sua certeza, terrorista. – eu disse, desabafando. Nunca, em minha vida, tinha me envolvido em questões políticas. Estava em uma nave, saindo do Sistema Solar, tentando salvar quem acabou ficando sob meu comando. Eu era um zero à esquerda, como o próprio Darwin. Custava menos do que o traje espacial que vestia.
   O tempo era curto. Corremos para a nave de fuga. Havia uma chance. Rigga puxou o corpo de Darwin, que estava na porta da nave, para podermos passar. O rosto desfigurado, o espírito desafiador pairando por algum lugar não sabido. Mais uma voz calada.
   O tempo terminava. Sob o corpo, outra bomba. Um click. Três segundos para pensar no medo de morrer. E fechar os olhos.


(Parte do livro de contos “O Tempo de Tudo”, de William Mendonça)
William Mendonça
Enviado por William Mendonça em 23/06/2020
Alterado em 23/06/2020
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